Grande parte do que consideramos conhecimento sólido repousa sobre um hábito silencioso: acreditar que o futuro se comportará como o passado. Quando afirmamos que o sol nascerá amanhã, que uma lei científica continuará válida ou que determinados eventos tendem a se repetir, estamos fazendo algo aparentemente trivial. No entanto, esse gesto cotidiano esconde um dos problemas mais profundos da filosofia moderna: o problema da indução.
Foi David Hume quem mostrou, de maneira devastadora, que essa confiança não possui a base racional que imaginamos. Décadas depois, Karl Popper levaria essa inquietação ainda mais longe, reformulando a própria maneira como entendemos a ciência. Juntos, eles expõem um limite incômodo: o conhecimento humano não se sustenta sobre certezas, mas sobre apostas racionais sempre provisórias.

O QUE ESTÁ EM JOGO QUANDO FALAMOS DE INDUÇÃO
A indução é o processo pelo qual inferimos leis gerais a partir de observações particulares. Vemos um fenômeno se repetir diversas vezes e concluímos que ele continuará ocorrendo da mesma forma. Esse procedimento parece natural, quase inevitável. Sem ele, a vida cotidiana e a ciência seriam impraticáveis.
O problema surge quando perguntamos: qual é a justificativa racional desse salto? Por que deveríamos acreditar que o futuro se parecerá com o passado? A resposta intuitiva costuma ser circular: porque sempre foi assim. Hume percebeu que esse argumento não prova nada. Ele apenas repete a própria suposição que tenta justificar.
HUME E O ABALO DAS CERTEZAS
David Hume não nega que usamos a indução. Ele nega que possamos justificá-la racionalmente. Para Hume, nossa crença na regularidade do mundo não nasce da razão, mas do hábito. Ao observar repetições constantes, nossa mente passa a esperar que elas continuem.
Esse diagnóstico tem consequências profundas. Ele sugere que muitas das nossas crenças mais fundamentais — inclusive científicas — não são racionalmente necessárias, mas psicologicamente inevitáveis. O conhecimento deixa de ser uma construção segura e passa a ser uma prática sustentada por expectativas. Hume não propõe abandonar a indução. Ele apenas mostra que ela não pode ser defendida com os critérios rigorosos que costumamos exigir da razão.
O CETICISMO COMO LUCIDEZ, NÃO COMO PARALISIA
Frequentemente, o ceticismo de Hume é interpretado como destrutivo. No entanto, sua força está justamente em expor limites, não em paralisar o pensamento. Ao mostrar que não temos garantias últimas, Hume obriga a filosofia a abandonar ilusões de fundamentação absoluta.
O ceticismo aqui não significa negar tudo, mas reconhecer que nossas crenças operam em um terreno instável. Essa lucidez não elimina o conhecimento, mas transforma a forma como lidamos com ele.
POPPER E A RECUSA DA VERIFICAÇÃO
Karl Popper retoma o problema da indução a partir de outro ângulo. Em vez de tentar justificar a indução, ele a rejeita como fundamento da ciência. Para Popper, teorias científicas não são confirmadas por repetições observacionais; elas são testadas por tentativas sistemáticas de refutação.
Segundo essa visão, uma teoria científica nunca é verdadeira no sentido definitivo. Ela permanece válida enquanto resiste a críticas e testes rigorosos. A ciência avança não acumulando certezas, mas eliminando erros. Com isso, Popper transforma a fragilidade apontada por Hume em método. A ausência de fundamentos seguros deixa de ser um problema e passa a ser o motor do progresso científico.
CONHECIMENTO COMO CONJECTURA
A noção de conjecturas e refutações redefine o estatuto do conhecimento. Saber algo não significa possuir uma verdade indiscutível, mas sustentar uma hipótese bem testada, consciente de sua provisoriedade.
Essa postura exige humildade intelectual. Nenhuma teoria está protegida contra o erro. Nenhuma explicação está acima da crítica. O conhecimento torna-se um processo aberto, sempre revisável. Nesse ponto, Popper radicaliza uma intuição já presente em Hume: não há garantias finais, apenas graus de resistência ao erro.
O IMPACTO EXISTENCIAL DO PROBLEMA DA INDUÇÃO
Embora formulado em termos epistemológicos, o problema da indução toca algo mais profundo. Ele revela que nossas decisões — científicas, práticas ou morais — são tomadas sem fundamentos absolutos. Vivemos agindo com base em expectativas que nunca podem ser totalmente justificadas.
Essa constatação desloca a responsabilidade para o sujeito. Se não há garantias últimas, cada escolha carrega um risco inevitável. O conhecimento deixa de ser um abrigo seguro e passa a ser um campo de responsabilidade.
ENTRE A RAZÃO E A INCERTEZA
Hume e Popper não nos dizem que devemos abandonar a razão ou desconfiar sistematicamente de todo conhecimento. O que ambos demonstram, cada um a seu modo, é que a razão opera dentro de limites claros e inevitáveis. O problema não está em formular inferências ou construir teorias, mas em esquecer que essas construções são sempre provisórias e sujeitas a revisão.
O erro filosófico, portanto, não é confiar na indução ou no método científico, mas tratá-los como fundamentos absolutos e inquestionáveis. Ao explicitar essa fragilidade, Hume e Popper não enfraquecem a racionalidade; ao contrário, tornam seu uso mais rigoroso e intelectualmente honesto.
Essa tensão entre racionalidade e incerteza atravessa toda a filosofia moderna. Ela marca o abandono das grandes fundações metafísicas e inaugura um pensamento que aceita a precariedade como condição permanente do conhecimento, exigindo vigilância crítica contínua em vez de segurança definitiva.
DO CONHECIMENTO À LIBERDADE
Quando o conhecimento perde suas garantias absolutas, surge uma pergunta inevitável: o que fazemos quando não podemos nos apoiar em essências fixas ou verdades definitivas? Se nossas crenças são provisórias, nossas escolhas também o são.
Essa situação não leva apenas ao ceticismo, mas à liberdade — uma liberdade acompanhada de responsabilidade. Se não há fundamentos últimos que nos determinem, somos obrigados a assumir o peso das decisões que tomamos.
É justamente esse deslocamento, do problema do conhecimento para o problema da existência, que será levado ao limite por pensadores existencialistas como Jean-Paul Sartre. Ao afirmar que a existência precede a essência, Sartre radicaliza a ausência de garantias já anunciada por Hume e Popper, transferindo-a do campo epistemológico para o campo da ação humana.
