A filosofia moderna nasce de uma inquietação radical: como ter certeza de que sabemos alguma coisa? No início do século XVII, essa pergunta deixa de ser apenas um problema teórico e se torna uma exigência urgente. As antigas garantias metafísicas já não bastam, e a confiança espontânea no mundo começa a ruir. É nesse cenário que René Descartes propõe um gesto extremo: duvidar de tudo aquilo que possa ser posto em dúvida.
A dúvida cartesiana não é ceticismo paralisante, mas método. Seu objetivo não é destruir o conhecimento, mas encontrar um ponto absolutamente seguro sobre o qual ele possa ser reconstruído. Esse projeto inaugura uma virada decisiva: o fundamento da verdade deixa de ser o mundo e passa a ser o sujeito pensante.

A DÚVIDA COMO ESTRATÉGIA FILOSÓFICA
Descartes percebe que grande parte do que tomamos como verdadeiro repousa sobre bases frágeis. Os sentidos enganam, as opiniões variam, os costumes mudam. Se o conhecimento deve ser sólido, ele precisa resistir à hipótese mais extrema de erro.
A dúvida metódica consiste em suspender provisoriamente todas as crenças que não sejam absolutamente indubitáveis. Isso inclui:
- As percepções sensoriais.
- As verdades empíricas.
- Até mesmo proposições matemáticas, sob a hipótese do gênio maligno.
Esse movimento não é natural nem confortável. Ele exige uma ruptura deliberada com a confiança cotidiana no mundo.
O SURGIMENTO DO COGITO
Ao levar a dúvida ao limite, Descartes descobre algo que não pode ser negado sem contradição: enquanto duvido, penso; enquanto penso, existo. O famoso cogito, ergo sum não é uma inferência lógica, mas uma evidência imediata.
O cogito não prova a existência do mundo, nem de Deus, nem do corpo. Ele afirma apenas uma coisa: a existência do sujeito enquanto coisa pensante. Mesmo que tudo seja ilusão, o ato de pensar não pode ser negado. Com isso, Descartes encontra o ponto fixo que buscava. O conhecimento passa a se apoiar não no ser das coisas, mas na certeza da consciência.
O SUJEITO COMO FUNDAMENTO
Essa descoberta muda radicalmente o eixo da filosofia. Onde Aristóteles partia da substância e do ser, Descartes parte do sujeito e da consciência. O pensamento deixa de ser uma atividade entre outras e se torna o fundamento de toda certeza possível.
Esse deslocamento inaugura a modernidade filosófica. A pergunta central deixa de ser “o que é o ser?” e passa a ser “o que posso conhecer com certeza?”. A metafísica se reconstrói a partir da interioridade. No entanto, essa virada tem um custo: o mundo exterior precisa agora ser garantido, não mais pressuposto.
O DUALISMO CARTESIANO
Ao afirmar a certeza do pensamento, Descartes distingue radicalmente dois tipos de substância:
- A res cogitans (coisa pensante).
- A res extensa (coisa extensa).
A mente é indivisível, imaterial e consciente. O corpo é divisível, material e sujeito às leis mecânicas. Essa separação funda o chamado dualismo cartesiano, que marcará profundamente a filosofia, a ciência e a psicologia. O problema, no entanto, surge imediatamente: como mente e corpo interagem? Se pertencem a naturezas distintas, como podem se afetar mutuamente?
A FRAGILIDADE ESCONDIDA NA CERTEZA
Embora o cogito seja apresentado como fundamento inabalável, ele carrega uma fragilidade estrutural. A certeza cartesiana é solitária. Ela garante apenas a existência do sujeito enquanto pensamento, mas deixa o mundo em suspensão.
Para reconstruir o conhecimento, Descartes precisa recorrer a garantias adicionais — como a existência de Deus e a veracidade divina — para assegurar que nossas ideias claras e distintas correspondem à realidade. Esse movimento revela que o cogito, sozinho, não sustenta todo o edifício do saber.
A modernidade nasce, assim, marcada por uma tensão: a busca por certeza absoluta convive com a dificuldade de sair da própria consciência.
O NASCIMENTO DO PROBLEMA DA CONSCIÊNCIA
Ao colocar o pensamento no centro, Descartes inaugura um problema que atravessará séculos: o que é a consciência? Se a mente é distinta do corpo, qual é sua natureza? Como ela se relaciona com o mundo físico?
O dualismo cartesiano prepara o terreno para debates posteriores sobre identidade pessoal, subjetividade e mente. Ao mesmo tempo, ele cria uma divisão que a filosofia e a ciência nunca conseguiram resolver plenamente. Essa herança chega até os dias atuais.
DA METAFÍSICA À CIÊNCIA MODERNA
O impacto do pensamento cartesiano vai além da filosofia. Ao separar mente e corpo, Descartes contribui para o desenvolvimento de uma ciência mecanicista, focada na explicação matemática da natureza. O mundo físico torna-se objeto de cálculo, previsão e controle.
Essa visão impulsiona avanços extraordinários, mas também reforça a cisão entre sujeito e mundo. A consciência permanece como um enigma, enquanto a matéria se torna cada vez mais compreensível.
O LEGADO PROBLEMÁTICO DO COGITO
O cogito cartesiano não resolve de forma definitiva o problema do conhecimento; ele o desloca para outro plano. A certeza absoluta é conquistada, mas ao preço do isolamento radical do sujeito pensante. Ao afirmar que a única verdade indubitável é a própria consciência, Descartes rompe a ligação imediata entre pensamento e mundo.
A partir desse ponto, toda tentativa de compreender a realidade passa a enfrentar a dificuldade de justificar a existência e a inteligibilidade do mundo externo. A separação entre consciência e realidade torna-se um problema central, exigindo mediações complexas que nem sempre se mostram convincentes.
Esse legado ambíguo faz de Descartes menos um herói incontestável da razão e mais um ponto de inflexão na história da filosofia. Sua obra inaugura simultaneamente a confiança no sujeito como fundamento do conhecimento e a crise profunda que decorre dessa mesma escolha, marcando de forma duradoura o pensamento moderno.
DO COGITO AO ENIGMA DA CONSCIÊNCIA
Ao afirmar que o pensamento é o primeiro fundamento, Descartes abre uma questão que permanece em aberto: o que é pensar? Se a consciência é distinta do corpo, como explicá-la em termos naturais? Ela é uma substância especial, um processo, uma ilusão?
Essas perguntas ganham nova força no mundo contemporâneo, marcado pelo avanço da neurociência, da inteligência artificial e por teorias que questionam se a consciência é exclusiva do ser humano — ou mesmo se ela pode ser atribuída à própria matéria. É nesse ponto que o problema cartesiano se desdobra em novas fronteiras.
DA DÚVIDA MODERNA ÀS FRONTEIRAS DA MENTE
A filosofia que começa com a dúvida metódica chega hoje a um cenário inesperado. Máquinas que simulam linguagem, sistemas que aprendem, teorias que atribuem consciência a toda a natureza. O cogito já não parece tão simples.
A pergunta que Descartes lançou — “o que posso saber com certeza?” — reaparece agora sob outra forma: o que significa ser consciente? E quem — ou o que — pode sê-lo? Essa transição conduz diretamente ao debate contemporâneo sobre mente, inteligência artificial e panpsiquismo.
