Ulisses não se tornou um marco por ser “difícil”, mas porque desafia aquilo que a literatura, por muito tempo, entregou como conforto: enredo claro, hierarquia de eventos, protagonista com missão, começo-meio-fim reconhecíveis. James Joyce escreve num momento em que a modernidade já esgarçou as grandes narrativas — religião, tradição, pátria, moral comum — e o sujeito começa a viver em um mundo onde tudo acontece rápido demais para ser plenamente compreendido.
A radicalidade do romance está em tratar um único dia como universo total. Não porque Joyce esteja celebrando o banal, mas porque ele está dizendo: é aqui que a vida acontece. O épico já não cabe no mundo moderno como grandiosidade externa; ele se desloca para dentro, para o ritmo mental, para as micropercepções, para o que não vira história nos jornais. Joyce transforma o cotidiano em campo de tensão entre mito e ruído, entre sentido e excesso.
O FLUXO DE CONSCIÊNCIA COMO EXPERIÊNCIA, NÃO COMO “TÉCNICA”
É comum falar do fluxo de consciência como um “recurso literário”, mas em Ulisses ele funciona mais como postura diante do real. Joyce não usa o fluxo para impressionar: ele o usa para recusar a mentira da linearidade. A mente não pensa em linha reta. Ela associa, escapa, se distrai, repete, volta, interrompe a si mesma. Ao colocar isso na página, Joyce força o leitor a perceber algo desconfortável: a experiência moderna é, por natureza, fragmentada.
Essa fragmentação muda a própria ideia de ação. Em muitos romances, ação é evento: algo acontece “fora”. Em Joyce, ação é percepção: algo acontece “dentro”. Um deslocamento na rua pode ser irrelevante como evento, mas decisivo como consciência. O romance troca grandes viradas de trama por pequenos movimentos mentais — e exige do leitor uma nova atenção, mais parecida com a atenção à vida do que com a atenção ao entretenimento.
Por isso Ulisses não é apenas narrado: ele é vivido. O texto não se oferece como caminho fácil; ele impõe fricção. A leitura se torna um tipo de trabalho, e esse trabalho tem sentido: é uma forma de tornar a consciência visível, com suas contradições, seus desvios e sua materialidade cotidiana.
E há ainda um ponto mais fundo: ao acompanhar mentes em fluxo, Joyce mostra que a modernidade não nos tornou mais “livres”, mas mais expostos. Quando nada é estável, a mente precisa produzir sentido o tempo todo — e isso cansa. O fluxo de consciência é também o fluxo da ansiedade moderna: pensamentos que não param, interpretações contínuas, vida interna saturada.
A ESTRUTURA INVISÍVEL QUE NÃO SALVA MAIS
A presença da Odisseia em Ulisses não é um ornamento erudito. Ela funciona como estrutura subterrânea — uma espécie de molde antigo aplicado a um mundo que já não comporta heroísmo tradicional. O gesto de Joyce é irônico e, ao mesmo tempo, sério: ele usa o mito para medir a distância entre o épico e o cotidiano moderno. O herói agora anda pela cidade, compra coisas, sente fome, lida com humilhações pequenas, atravessa o dia como quem atravessa uma névoa.
Esse contraste cria uma crítica silenciosa: a modernidade herdou símbolos grandiosos, mas perdeu a crença no que eles prometiam. O mito permanece, mas como ruína. Ele organiza o texto, porém não organiza a vida. Não há Ítaca no fim do dia. Não há retorno glorioso. Há apenas continuidade — e uma espécie de persistência sem triunfo.
Ao mesmo tempo, Joyce mostra que o mito não desaparece; ele se rebaixa e infiltra. Ele reaparece nos hábitos, nas repetições, nas imagens mentais, nas obsessões. A mente moderna ainda busca estruturas antigas para suportar o peso do presente. Só que agora ela faz isso sem se dar conta. O mito virou padrão interno, quase inconsciente.
Essa é uma das ambivalências mais fortes do romance: Ulisses não ridiculariza a necessidade humana de sentido. Ele mostra que precisamos de molduras — mas que as molduras disponíveis não encaixam mais. O efeito disso é uma existência meio desencaixada: a vida segue, mas sem promessa de síntese.

UMA ÉTICA DO COTIDIANO: O HEROÍSMO REBAIXADO À PERSEVERANÇA
Se existe algo “filosófico” em Ulisses, não está em discursos explícitos, mas no modo como o romance trata o cotidiano como lugar de valor. Joyce sugere que a dignidade humana não depende de feitos memoráveis. Ela depende de como se atravessa o dia: como se olha para o outro, como se suporta o próprio pensamento, como se resiste à indiferença sem se tornar indiferente.
Leopold Bloom é decisivo justamente por não ser o herói clássico. Ele não vence. Ele não salva. Ele não conquista. Ele segue. E seguir, em um mundo saturado e fragmentado, exige uma espécie de força moral silenciosa. Bloom pensa, sente, é atravessado por vergonha, desejo, saudade, pequenas humilhações — e continua, sem se reduzir ao cinismo.
Joyce constrói, assim, uma ética da atenção. Atenção ao detalhe, à linguagem, ao corpo, ao que a vida costuma esconder sob pressa. Essa atenção não é “bonita”; ela é incômoda. Porque olhar com atenção revela o quanto a mente é confusa, o quanto o desejo não é nobre, o quanto a vida social é feita de códigos e mal-entendidos. O romance não idealiza o humano. Ele o expõe sem crueldade e sem maquiagem.
Essa ética tem uma consequência importante: ela desloca a literatura do extraordinário para o comum sem empobrecê-la. Pelo contrário — ao tratar o cotidiano como matéria épica, Joyce aumenta a responsabilidade do leitor. Ele pede um tipo de leitura menos ansiosa por “resultado” e mais disposta a suportar complexidade.
VOZES, FRAGMENTAÇÃO E A MENTE MODERNA
Em Ulisses, a linguagem não serve apenas para descrever o mundo; ela é o próprio mundo. Joyce muda registros, parodia estilos, estilhaça a frase, produz excesso. Essa instabilidade formal não é virtuosismo gratuito. Ela expressa uma realidade central: a modernidade é feita de múltiplas vozes competindo dentro e fora do sujeito.
O leitor percebe que a identidade não é uma unidade. Ela é uma colagem. Há vozes sociais (religião, moral, política), vozes internas (desejo, culpa, fantasia) e vozes da linguagem em si (os clichês, as repetições, as frases prontas). Joyce revela o quanto pensamos com palavras emprestadas — e como isso torna a consciência um território disputado.
Por isso Ulisses é tão moderno: ele mostra que a mente não é um refúgio transparente. Ela é uma arena. O sujeito se forma no conflito entre impulsos, memórias, referências culturais e o ruído do mundo. Ao transformar isso em forma literária, Joyce faz uma coisa rara: ele não “explica” a modernidade — ele a simula.
E essa simulação tem um custo: exige paciência, exige esforço, exige que o leitor aceite não entender tudo de primeira. Esse é um dos sentidos do romance: a vida moderna também não se entende de primeira. Ela se atravessa, se revisita, se recompõe aos poucos.
DO LABIRINTO DA CONSCIÊNCIA AO DETERMINISMO TRÁGICO
Ao terminar Ulisses, fica a sensação de que a consciência é um labirinto: rica, viva, saturada, mas também cansativa e instável. Joyce mostra a mente tentando produzir sentido em meio ao excesso moderno. Só que a literatura do século XX também caminhou para outro limite: quando a mente não é apenas labirinto, mas prisão.
Em Santuário, de William Faulkner, a modernidade não se manifesta como fluxo urbano e multiplicidade de vozes, mas como tragédia social, violência e determinismo. O indivíduo não apenas se perde em sua consciência: ele é esmagado por forças externas — classe, moral, brutalidade, destino.
É uma passagem dura: de Joyce, onde ainda existe uma ética da atenção e uma possibilidade de persistência sensível, para Faulkner, onde a resistência parece não mudar o curso das coisas. É nesse contraste que a literatura moderna revela sua amplitude — e sua crueldade.
